
Escrita · 31 ago 2017
Nuvens debaixo do meu chão
Construir um pequeno datacenter na minha cave
Em casa tenho uma ligação de internet ótica loucamente rápida. É uma ligação de fibra de 600MB de descarga e de envio que chega diretamente a casa (sem cabos de cobre pelo meio). É como uma autoestrada privada da internet. Razão mais do que suficiente para ver se conseguia fazer alguma coisa para aproveitar melhor toda esta fibra veloz...
Hardware
Tinha algumas peças que me sobraram de quando matei a LAN do meu escritório no mês passado. Podes ler sobre isso aqui. Sobraram-me uns cabos de rede blindados, umas fontes de alimentação e um servidor de baixo consumo. Todos os ingredientes para um pouco de engenharia de datacenter caseira.
O servidor começou a vida como um computador de secretária económico (e silencioso). Desmontei-o para tirar a unidade ótica e abrir espaço para mais memória e discos rígidos. Agora tem dois discos de 8TB cada, o que dá uns impressionantes 16TB de armazenamento.
Software
O computador corre Debian GNU/Linux, o mesmo software que os meus servidores empresariais correm no (verdadeiro) datacenter. Isto é ótimo, porque significa que posso usar exatamente o mesmo software que um servidor normal usaria. (Por exemplo, com muita ação nativa de HTTP, SFTP, SSH e RSYNC!)
Debaixo do chão
O ideal era o hardware ficar fora da vista, por isso fui à procura de um sítio adequado em casa. O hardware de computador funciona melhor em ambientes secos e frescos. Achei que o espaço por baixo da minha casa cumpria essas condições.

Tem acesso fácil por uma escotilha no chão, perto da porta de entrada. Este espaço serve de amortecedor entre as fundações e a casa. Em algumas casas este espaço não é seco, mas a julgar pela quantidade de pó completamente seco, percebi que aqui não entra humidade há anos.

Para ter a certeza, peguei em algumas lajes de betão e fiz uma torrezinha para levantar a eletrónica do chão. Depois de mais algum esforço, consegui fazer chegar um cabo de alimentação e um cabo de rede ao meu pequeno datacenter acabadinho de montar.
Se estás a pensar fazer isto também, garante que o local é seco. Em caso de dúvida, podes comprar um sensor de humidade por uns euros numa grande superfície. Ou arranjar um que ligues por USB ao próprio servidor. Seja como for: eletrónica e água normalmente não se dão bem...
Testes
O servidor liga-se ao router através de um cabo Ethernet CAT6 blindado de 1GB. O router Apple Airport Extreme está ligado ao modem de fibra com um cabo CAT6 muito curto. Depois de ligar o servidor e de configurar um pouco o router, estava pronto para um pequeno test drive.


O ping ao google.com é rapidíssimo, com uma média de 3,4 milissegundos. Depois decidi ver que velocidades conseguia ao fazer passar dados pelo fio. Para este teste usei o rsync para copiar um monte de ficheiros. A velocidade é fantástica, chegando a mais de 230 megabit, o que presumo ser por causa dos limites físicos dos meus discos rígidos e de algum overhead do software devido à encriptação que uso.
Em apenas uma hora copiei cerca de 104 gigabytes de dados. É uma velocidade absurda, velocidade de datacenter. Se o deixasse a trabalhar a todo o vapor, poderia transferir 2496 gigabytes por dia e uns incríveis 75TB por mês.
A certa altura até contactei o fornecedor de internet, que monitoriza o datacenter, para lhe dizer que o pico de tráfego não era um erro nem um ataque DDOS... era eu e o meu pequeno servidor. :-) Viram o tráfego e agradeceram a explicação.

Utilização real
E que tal usá-lo a sério? Decidi usar o meu servidor recém-ligado como cópia de segurança adicional: fazer cópias de ficheiros de produção e de bases de dados dos servidores verdadeiros. Embora a computação na nuvem tenha ficado mais barata nos últimos anos, armazenar big data continua a ser caro (50 € por mês por apenas 10TB).
Nunca faria computação de produção a sério com uma configuração destas. O datacenter é muito mais adequado para isso, porque oferece uma redundância de energia e de conectividade inigualável. Mas para operações não críticas funciona lindamente!
Assim está feito: nuvens debaixo do meu chão.
