Lições de um saco de plástico de comida para levar

Escrita · 8 jan 2018

Lições de um saco de plástico de comida para levar

A minha antipatia crescente pela obsolescência programada

Há cerca de cinco meses, comprei comida para levar no restaurante asiático cá do bairro. Embalaram a comida e deram-me um saco de plástico para a levar para casa. A caminho de casa fui a pensar no saco. Apesar de ter uns desenhos giros impressos, foi concebido para uma única utilização. Que desperdício... Fiquei a pensar: quanto tempo duraria se o usássemos todos os dias?

Saco de plástico do restaurante asiático de comida para levar
Saco de plástico do restaurante asiático de comida para levar

Numa semana normal de trabalho levo muitas vezes almoço de casa. A minha mulher cozinha lindamente e não custa nada comer as sobras ao almoço do dia seguinte. Uso o saco de plástico para embrulhar a caixa (reutilizável) dentro da mochila com que vou para o trabalho, para proteger o resto do conteúdo de possíveis (mas raros) derrames.

O saco de plástico em ação no trabalho, com comida dentro, a proteger o conteúdo da mochila
O saco de plástico em ação no trabalho, com comida dentro, a proteger o conteúdo da mochila

Como vou para o trabalho de bicicleta, o conteúdo da mochila está sujeito a choques e abanões, enquanto encontro a minha dose diária de buracos, lombas e lajes de passeio tortas...

... seis meses, 2000KM e a contar!

Adivinha? Passados cinco meses a andar comigo, cerca de 2000KM, continua bom. É claro que há sinais de desgaste (uns buracos aqui e ali), mas o saco ainda é funcional. Está ótimo, podia usá-lo para levar comida para casa tal como quando era novo.

Isto chocou-me um pouco, porque percebi a quantidade absurda de sacos de plástico que deitei fora ao longo dos anos... que desperdício. Mas, mais do que isso, percebi que não se tratava só de sacos. Percebi que muitos outros produtos que uso são como o saco de plástico: concebidos para serem deitados fora.

Comprar produtos novos

Todos os anos compro um smartphone novo e um computador. Como programador, crio sites e apps. Sempre foi uma decisão óbvia para mim: uso-os para trabalhar, por isso compro-os. Todos os anos.

Normalmente vendo as máquinas "velhas" ou dou-as à família. Mas ao longo dos anos ficaram-me alguns dispositivos. Inspirado pelo saco de plástico eterno, decidi dar uma segunda vista de olhos a estes dispositivos:

Smartphone

Considera por um momento o seguinte smartphone, com estas especificações:

  • ecrã de 4,95" (painel IPS de alta qualidade)
  • 1080x1920 píxeis a 445 píxeis por polegada (PPI)
  • processador de quatro núcleos a 2,26GHz
  • GPS, WiFi, Bluetooth, NFC
  • Carregamento sem fios
  • 3G e 4G (rápido)
  • As apps mais recentes e melhores disponíveis

... agora adivinha de que ano é este telemóvel? É o LG Nexus 5 de 2013. Esse telemóvel já tem mais de 5 anos!

LG Nexus 5 a correr a versão mais recente do Chrome (v63)
LG Nexus 5 a correr a versão mais recente do Chrome (v63)

O Nexus 5 ainda é suportado pela Google Play e podes transferir (e usar) apps modernas. Ainda corre a versão mais recente do Chrome. Uso-o para testar apps e sites para o meu trabalho. Pode não ser tão rápido como um iPhone X, mas não é nada mau.

Tal como o saco de plástico, o Nexus aguenta-se perfeitamente. Ainda funcionaria como smartphone hoje.

Portátil

Outro exemplo: considera este portátil, com as seguintes especificações:

  • ecrã IPS panorâmico de 12"
  • processador Intel de 64 bits (2,13GHz, vários núcleos)
  • 8GB de RAM
  • disco de estado sólido (SSD) de 1TB
  • Wifi, Bluetooth, LTE/rede móvel
  • Autonomia de bateria de mais de 10 horas

... impressionante? Impressionante como um MacBook da Apple dos dias de hoje? Estas são as especificações do meu ThinkPad X200 de.... 2008! Sim, meus senhores e minhas senhoras: 10 anos!

ThinkPad X200 a correr Debian GNU/Linux com OpenBox.
ThinkPad X200 a correr Debian GNU/Linux com OpenBox.

Os ThinkPads são famosos pela durabilidade e facilidade de manutenção. Este X200 é a prova viva. Aumentei a RAM e instalei um SSD (com uma facilidade incrível, só com uma chave de fendas normal).

Aumentar a memória e o SSD do ThinkPad X200 é fácil.
Aumentar a memória e o SSD do ThinkPad X200 é fácil.

Instalei Debian GNU/Linux com OpenBox (um gestor de janelas mínimo e leve) e corre de forma extremamente fluida. O teclado fantástico, em combinação com Linux, continua a fazer desta máquina um terminal perfeito.

Obsolescência programada

O facto de eu substituir os meus dispositivos todos os anos é o resultado daquilo a que se chama "obsolescência programada". É uma estratégia de design que consiste em fazer produtos com uma vida útil artificialmente limitada. A ideia por trás desta estratégia é reduzir o tempo entre compras repetidas, para aumentar o volume de vendas a longo prazo.

Há alguns tipos de obsolescência programada que podes reconhecer facilmente nos produtos de hoje, incluindo a eletrónica de consumo:

  • Durabilidade forçada: é uma estratégia para fazer um produto avariar depressa, usando materiais e peças inferiores ou frágeis. Como: peças de vidro nos smartphones, dobradiças de plástico nos portáteis
  • Reparação dificultada: é uma estratégia para tornar um produto difícil de reparar ou de fazer manutenção, selando-o, colando-o ou unindo-o de tal forma que é impossível desmontá-lo. Como usar parafusos esquisitos ou laminar peças do ecrã
  • Desejo ditado pela moda: é uma estratégia para fazer um produto parecer menos desejável, introduzindo novas estéticas em ciclos de moda. Como cores, formas de ecrã e curvas
  • Funcionalidade decrescente: é uma estratégia para fazer um produto perder funcionalidades, excluindo-o das atualizações de software ou limitando as suas funções dependentes da rede. Como apps que funcionavam perfeitamente e deixam de ser suportadas por causa de uma nova versão incompatível com o teu produto

Conclusão: o que levar do saco de plástico da comida para levar

Embora o meu smartphone e o meu portátil antigos ainda funcionem bem, preciso dos dispositivos novos para testar os meus sites e apps. E isso é por tua causa, caro leitor; porque queres que este texto apareça corretamente no teu ecrã moderno.

Mas, felizmente, isto só se aplica ao meu equipamento profissional, o mesmo não se aplica a todos os produtos que uso. Coisas como a minha bicicleta, a TV, a mochila, a roupa, os sapatos e vários aparelhos domésticos.

Se há algo que podes levar do meu saco de plástico da comida para levar: pergunta-te se realmente precisas do dispositivo mais recente, ou se estás a ser enganado pela obsolescência programada. Sê consciente, fica atento!

Podes poupar muito dinheiro e, ao mesmo tempo, és muito mais simpático para o ambiente.

Dopper, a garrafa é a mensagem
Dopper, a garrafa é a mensagem

Uma forma pequena de começar é deixar de usar garrafas de plástico de utilização única. Arranja uma garrafa decente e reutilizável. Um bom exemplo é a Dopper, recebi uma da minha mulher no meu aniversário. Feita para durar, fácil de limpar e fácil de reparar (as peças vendem-se separadamente e são intermutáveis).

Vamos combater juntos a obsolescência programada!

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